sábado, 27 de maio de 2017

Rua Latino Coelho nº 3 em Algés







 Já com toda a certeza muitos algesinos se interrogaram quanto ao passado deste imóvel degradado na Rua Latino Coelho em Algés, após recepção de dois emails gentilmente enviados pelo nosso caro amigo e leitor João Sant'Ana, ficámos a saber a sua história

 Este tipo de informação é para nós de grande importância e ficamos assim a saber um pouco mais de um dos imóveis originais do antigo Bairro Soares, que, como podem verificar nas fotografias que o João Sant'Ana nos enviou eram praticamente todos de um piso e dos quais sobram muito poucos com a configuração original.



Que eu saiba serão apenas quatro em toda a zona que englobava o antigo Bairro Soares, mais este ao qual foi adicionado um andar, este património marca uma época de mudança em Algés com a sua primeira urbanização em lotes e seria sem dúvida importante que, alguém nos meandros oeirenses se importa-se em preservar estas pérolas arquitectónicas "semí-saloias" que marcam a passagem de um passado rural para um futuro urbano no início do século XX.



Passo a transcrever as linhas enviadas pelo João Sant'Ana:

-"Existe um prédio na Rua Latino Coelho nº 3, que se encontra em estado total de chocante degradação, fundamentalmente para mim.
 Nasci nesse imóvel em 1941, assistido por uma parteira muito conhecida em Algés (morava na Av dos Combatentes, entre a R. António Granjo e a Latino Coelho) e que se chamava D.Cesaltina.
 Essa vivenda foi mandada construir por meu avô em 1936, mais tarde, em 1947, o meu pai mandou construir mais um piso, e assim ficou uma moradia bi-familiar.
 Em 1964/5, meu pai teve que negociar a casa, por motivos particulares, tendo sido ela comprada pelo Dr. Arlindo Vicente (antigo candidato à Presidência da República nos finais da época do Salazar). Casei-me em 1965 continuando a morar no r/c , agora como inquilino.
 Saí dela em Novembro de 1967 devido às inundações (cerca de 1,5 mts de agua e lama entraram pela casa dentro destruindo a totalidade dos meus haveres. Felizmente nem a minha mulher e meu filho se encontravam em Lisboa e eu andava na minha vida profissional, embarcado no navio São Thomé da CNN. Naquele dia fatídico, estava a navegar na zona das Ilhas Canárias, rumo a Portugal, mas sofri na pele as consequências desse fenómeno natural.
 Apesar dessa casa ter-me dado gratas recordações desde a minha meninice até ao inicio em que constitui família em 1965, faz-me pena ver o estado ruinoso e abandonado, como ela se encontra agora. Muito sinceramente gostaria de ver o seu "abate"."



 Tentei no entretanto recolher mais dados quanto às razões do seu estado de pré ruína mas nada de novo surgiu, apenas que o imóvel atingiu este estado de degradação devido a problemas com a herança do Dr. Arlindo Vicente e assim continua um pouco mais perto da ruína todos os dias.







quinta-feira, 4 de maio de 2017

A União das Freguesias na Grande Vista de Lisboa de Gabriel del Barco



Na sala de exposição do terceiro piso do Museu Nacional do Azulejo, pode-se observar uma das peças mais notáveis à guarda deste Museu : A Grande Vista de Lisboa (ou Grande panorama de Lisboa), cujo tema é a representação da cidade antes do trágico sismo de 1755.
 O painel pertenceu ao Palácio dos Condes de Tentúgal, situado no largo de Santiago em Lisboa. A encomenda e a contextualização em que foi produzida, ainda hoje, permanece pouco clara, embora alguns avanços tenham sido dados, nos últimos anos, pelo especialista em estudos de azulejaria José Meco, que a atribuiu ao pintor de azulejos Gabriel del Barco (1649-c. 1703) e a datou de cerca de 1700.
 No contexto da azulejaria portuguesa, estamos perante um exemplar único, pela apresentação de Lisboa desde o sítio da Cruz Quebrada até Xabregas numa narrativa citadina completa, incluindo fortes, palácios, quintas, igrejas, conventos, mercados, fontes, moinhos de água e alguns símbolos cristãos como as cruzes. O movimento da Lisboa do século XVIII foi também registado em traços apressados, através dos quais surgem pequenas figuras humanas ocupadas com os afazeres quotidianos. Saliente-se ainda a graduação da perspectiva, que elege como zona principal o Terreiro do Paço, verdadeiro palco de todas as festividades ocorridas na Lisboa Barroca, para se ir esbatendo na representação das quintas e conventos dos arredores. Para completar esta breve referência à história do painel, resta realçar que a sua importância reside também, no facto, de ter permanecido num estado praticamente completo até aos nossos dias mantendo-se como um dos mais importantes documentos iconográficos para os Estudos da Olisipografia.
 Na enorme panorâmica, aparece o trecho marginal do Tejo entre a foz do Jamor, até região de Algés, passando pelos os morros de Ribamar, que é de especial relevo.  Podemos encontrar nele claramente a ponte sobre a ria e o Forte da Conceição, que foi colocado por erro na margem errada da ribeira, o Convento de Santa Catarina-a-Velha, na Cruz Quebrada e forte da Cruz Quebrada (já desaparecidos).




De todas as representações plásticas de Lisboa a mais vasta e sob certos aspectos a mais interessante é sem dúvida a Grande Vista de Lisboa. A enorme panorâmica que concentra em 21 metros de longo, Lisboa e arredores esteve, em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, a cujo fundo pertenceu, até aos anos 60. O espaço necessário para a sua condigna apresentação foi, desde sempre, problema relevante para a sua exposição e, assim, ocupou vários locais, nenhum respondendo bem aos ditâmes museológicos de um registo com a sua importância.
 Logo inicialmente, em 1903, a montagem dos azulejos no longo painel foi, ao que parece, condicionada ao espaço disponível na parte do átrio de entrada do antigo Palácio dos Condes de Alvor, vulgo "das Janelas Verdes", foi a panorâmica encurtada com a omissão de alguns azulejos dos extremos.
 Quando se iniciou a mudança dos azulejos para o edifício do Museu do Azulejo no Mosteiro da Madre de Deus , a grande maioria encontrava-se encaixotada ou amontoada a granel, procedeu-se então ao trabalho de reconhecimento desse fundo, fazendo-se as necessárias separações e triagens.
 Em um dos muitos caixotes, ainda com as tampas pregadas, encontraram-se azulejos que logo se reconheceu pertencerem a um conjunto ou painel: os ladrilhos, alguns partidos, ostentavam no verso (tardoz) as características marcas originais de ordenação e assim foi fácil dispô-los correctamente. Calcula-se facilmente o alvoroço do signatário quando «descobriu» que se obtivera um painel praticamente completo, ostentando trecho de paisagem urbana, facilmente identificável com a Grande Vista de Lisboa de que parecia fazer parte! Uma ligeira observação do que estava à vista permitia reconhecer nos edifícios o antigo Convento de Xabregas, ou seja, supor que estes azulejos constituiriam a continuação da grande panorâmica para o lado do Nascente. Poucos dias depois ao fazer-se a triagem de outro enorme amontoado de azulejos. dos mais diversos tipos, épocas e características, foram aparecendo azulejos manifestamente semelhantes aos da mesma vista lisboeta, com as coordenadas marcadas por forma e caracteres idênticos. Devidamente escolhidos, rebuscados os mais pequenos fragmentos que pudessem ter semelhanças cromáticas ou mesmo tipo de massa com os anteriormente descobertos, iniciou-se o longo trabalho de compor um painel que logo revelou ser maior do que o primeiro, se bem que em pior estado de conservação e menos completo; em breve se reuniu o número de peças suficiente para tornar o quadro visível e, assim, identificar alguns dos acidentes iconográficos com o sítio de Ribamar, a poente dos últimos edifícios que, nesta direcção, se mostravam na Grande Vista de Lisboa - o Convento de São José de Ribamar. Estaria-se, portanto, em face de outro extremo da panorâmica dos Condes de Tentúgal, a qual parecia ter sido encurtada quando da exposição no museu.
 Este segundo painel esteve montado a título provisório e para estudo durante alguns meses mantendo-se a esperança de que fossem aparecendo os azulejos que faltavam para completar o quadro. A esperança não terá sido em vão e, pouco a pouco, de cada vez que se procedia à triagem de novo «granel», apareceram azulejos inteiros ou fragmentos que se provaram pertencer ao quadro. Desta forma faltam apenas 4 azulejos completos e fragmentos de outros mas foi possível entender a representação e tirar dela o proveito da sua lição histórica.
 Pelo estudo das coordenadas chega-se à conclusão que inicialmente a Grande Vista de Lisboa não seria constituída por um único painel, tal como tem sido exposta, mas que estaria dividida em troços de número irregular de peças, provavelmente de acordo com os espaços onde estavam montados. Também se verifica que os painéis descobertos (e provavelmente todos os outros) tiveram sua moldura constituída por uma barra de dois azulejos de largura, o que era aliás o caso normal.

 A respeito deste lado poente do painel, existe um estudo muito interessante na revista "Olisipo" Nº 95 de Julho de 1961 no texto do Engenheiro J. M. dos Santos Simões "Iconografia Olissiponense em Azulejos", que nos elucida acerca dos imóveis e registos representados nos azulejos:

"RIBAMAR - Os azulejos que foi possível agrupar formam um painel com 8 azulejos na altura e 17 no comprimento, todos quadrados de 140 mm. Note-se no entanto que se encontraram pedaços dispersos e que seriam de uma primeira fiada vertical do lado esquerdo e que tinham 140 mm x 80 mm (fig. 2).  Como no caso anterior tão-pouco há uma ligação perfeita entre os azulejos extremos da Grande Vista e os deste painel, mas, desta vez, a falta deve resumir-se a duas ou três fiadas verticais, correspondentes à relativamente curta distância entre o convento de São José - último do lado poente na Vista que esteve nas Janelas Verdes - e o de Santa Catarina, primeiro do lado nascente deste novo painel.



 Além dos azulejos em falta e dos muitos fragmentados, nota-se que este pano sofreu corrosão por «salitragem» com destruição não só do esmalte mas da própria massa. Também a parte central esteve sujeita a forte calor o que provocou o «recosimento» de algumas peças e o aparecimento de recticulado característico. Teriam sido efeitos do Terramoto?
 Representa o painel o trecho marginal do Tejo entre a foz do Jamor, à esquerda do observador, e a vertente dos morros de Ribamar, isto é, precisamente, a zona hoje conhecida por Cruz Quebrada e Dafundo até Algés.
 Da Grande Vista de Lisboa, na extrema esquerda do observador, já se conhecia a ponte de pedra sobre o Rio de Algés e que o pintor dos azulejos coloca imediatamente a jusante da Torre de Belém, não indicando o forte de Nossa Senhora da Conceição que estaria melhor naquele local. Também ao desenhar a ponte não se deve ter cingido à verdade, a menos que esta obra-de-arte tenha sofrido alteração desde o tempo em que foi construída - 1608- e aquele em que foram pintados os azulejos - cerca de 1730 (18).
 As perspectivas estão assaz torcidas mas, no entanto, os acidentes topográficos e as edificações sucedem-se ordenadamente umas às outras. Assim, naquela última parte da Grande Vista, víamos que ocupam as suas posições relativas o Convento do Bom Sucesso, o palácio da Princesa, a quinta e palácio de Pedrouços, dos Duques de Cadaval, e, em frente deste, a Torre de Belém. Ao longe, no vale do Algés, as povoações de Outorela e Portela. Passada a ponte, começava a rampa que conduzia ao Convento de São José de Ribamar, com cujos edifícios se julgava terminar a panorâmica que veio do Largo de São Tiago.


 O painel agora «descoberto» vem aumentar aquela vista com o trecho da margem entre o Convento de Santa Catarina de Ribamar e uma ponte que se observa na banda da esquerda e que julgo ser a que ainda existe sobre o ribeiro que desce de Linda-a-Pastora junto à moderna estrada marginal, na Cruz
Quebrada. No alto da colina cujas abas desciam abruptamente sobre as rochas, vemos, à direita, o conjunto das edificações do Convento de Santa Catarina-a-Velha e do palácio que o 2.° Conde de Miranda, D . Diogo Lopes de Sousa, começou a edificar e que foi notavelmente ampliado por seu filho, D. Luís de Sousa - por antonomáxia O Cardeal- 19.º Arcebispo de Lisboa e Capelão-mor de D. Pedro II (19). Foi também este magnífico prelado quem mandou reedificar o Convento de Santa Catarina na forma em que o vemos nos azulejos.
 No sopé do monte de Santa Catarina, junto às rochas marginais, vemos nitidamente um forte de planta trapezoidal, tendo no interior do reduto edificações e vegetação abundante. O Padre Carvalho, já citado, enumera neste extremo de Lisboa, os fortes de Nossa Senhora da Conceição, junto à confluência do rio de Algés com o Tejo, o de São Joseph, defronte o convento do mesmo nome, o de Santa Catarina e o da Boa Viagem. Sabendo que este último ficava a jusante do vale do Jamor, temos, por exclusão de partes que o forte dos azulejos é o de Santa Catarina. Aliás basta notar a sua posição relativamente ao convento para se aceitar a presunção, se bem que, na verdade topográfica, o forte ficasse mais próximo da ponte, para o oeste.
 O Forte de Santa Catarina, também conhecido por Forte da Cruz Quebrada, ainda existe e precisamente na face que os azulejos apresentam. Sobre os paramentos de onde não desapareceram as ameias, eleva-se o conhecido prédio «acastelado» que foi mandado fazer pelo 3.º Barão de Sabrosa - capitão do Exército e governador do forte da Cruz Quebrada - João Infante de La Cerda de Sousa Tavares Pizarro. Foi aqui que viveu o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República, permanecendo a propriedade na família.
 Daqui em diante a interpretação do painel de azulejos apresenta sérios problemas. Na verdade, vê-se entre o Convento de Santa Catarina e a ponte da extrema esquerda, um grupo de edifícios enquadrados por arvoredo e que pela configuração parecem pertencer a algum convento. Por outro lado o forte de Santa Catarina que na realidade está quase junto à ponte da Cruz Quebrada, aparece nos azulejos sensivelmente longe dela, ficando entre ambos os tais edifícios com longa escadaria que nasce encostada às guardas da mesma ponte. Foram baldados todos os esforços para encontrar restos de outro edifício religioso - ou mesmo civil - entre o Convento de Santa Catarina e as margens do Jamor que pudesse responder, pela época ou configuração, àquela que nos mostram os azulejos, e, no entanto, tal edifício não foi, certamente, inventado pelo pintor, tão cuidadoso e minucioso na implantação e retrato dos acidentes Sendo assim, como explicar esta aparente anomalia?
 Segundo os textos citados, sabemos que os Arrábidos de Santa Catarina ocuparam o terreno do Cano do Mouro onde edificaram o Convento Novo, também da invocação de Santa Catarina - Santa Catarina-a-Nova e que este era «mais abaixo» do Convento Velho (segundo a Coreografia Portuguesa), «pouco distante» (segundo o Claustro Franciscano) ou «em pouca distancia ... mais para a foz do mar» (segundo o Espelho de Penitentes). Estas palavras levam a pensar que a nova casa conventual ficaria perto do convento abandonado, e, daí, poder ser localizado entre este e a foz do Jamor, ou seja, sensivelmente onde os azulejos mostram o tal grupo de edificações. Porém, sabemos pelos mesmos textos que, logo que o Convento de Santa Catarina-a-Velha foi reconstruido, para lá voltaram os frades, e com eles, a imagem do orago, passando o Convento Novo a ter a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem, pela qual ficou a ser conhecido.
 Ora a verdade é que o Convento da Boa Viagem, cujas ruínas chegaram aos nossos dias - tendo desaparecido os vestígios mais importantes quando se construiu a Estrada Marginal Lisboa-Cascais e o Estádio Nacional - era tido como localizado na margem direita do Jamor, no sítio ainda hoje conhecido pela Boa Viagem em cujo alto se conservou, por memória, uma pequena ermida. Era aqui, também, que estava o Forte da Boa Viagem, e em todas as cartas antigas onde se traça a barra do Tejo, lá aparece assinalado tanto este forte como um edifício com uma cruz - indicativo de igreja,
ermida ou convento.
 A não ser que o pintor dos azulejos tivesse tomado exageradas liberdades com a topografia - o que não parece ser o caso se considerarmos toda a restante panorâmica - os edifícios que se vêem no painel a cavaleiro da ponte e a esta ligados por escadório, não podem ser os do Convento da Boa Viagem, que ficavam mais a poente, do outro lado da ponte.
 No local onde nos parece terem estado os edifícios retratados ergue-se há muitos anos uma vivenda - a Quinta da Bela Vista - edificada sobre casa antiga é certo, mas de que a tradição não guardou notícia de ter sido convento. Houve ali uma capela de Nosso Senhor dos Aflitos, imagem muito devota e onde concorriam romeiros: seria esta capela a que o pintor dos azulejos quis representar? Não me parece que a relativa sumptuosidade e volume dos edifícios possa ter sido de uma ermida devocional ...
 Dar-se-ia o caso de, já antes da transferência da invocação de Santa Catarina para o Convento Velho, ou seja quando o Convento Novo passou a chamar-se de Nossa Senhora da Boa Viagem, existir alguma capela no «sítio» da Boa Viagem e terem os frades aproveitado esta invocação para o convento de baixo?
 Eis um pequeno problema que poderá interessar os historiógrafos de Lisboa. ou daquelas bandas arrabaldinas ...
 A ponte, essa, é que parece não ser outra diversa da que ainda ali se encontra, ou seja aquela a que se refere tão copiosamente o Cronista da Arrábida e que ficava sobre o rio que vinha de Linhalpastor (Linda-a-Pastora)."
 Porque se trata de um valioso testemunho para a história de Lisboa, e porque a sua leitura é tão agradável como pitoresca, não resisto ao desejo de reproduzir as palavras de Frei António da Piedade.  Escreve o Cronista, tratando da vida do Venerável Frei Rodrigo de Deus, religioso que foi do Convento de Santa Catarina:



 «Padecião grande trabalho todas as pessoas que das partes de Cascaes, Oeiras e outros lugJres vinhão à Cidade de Lisboa, por causa dos rios de Laveiras, Linhalpastor e: Alges, que vão desaguar na anseada de S. Joseph. Ordinariamente, que quando vínhão ou quando se recolhião para suas casas, os achavão crescidos, por causa da maré que enchia; e querendo vadeallos, se vião muitas vezes em evidente perigo de se afogarem e algumas pessoas padecião esta desgraça. Não era tambem pequena a que experimentavão outras em suas almas, offendendo a Deos gravemente. Havia alguns homens deputados nas margens daquelles rios, para passarem às costa! assim a homens, como a mulheres, que não levavão cavalgaduras; e como falta-se às vezes o dia com a sua claridade, aproveitava-se o Inferno das obscuras sombras da noite, para se augmentar no lucro dos seus malévolos contratos. Condoído o Servo de Deos de tanta miseria e parecendo-lhe que era ignorada de quem a podia remediar, determinou representarlha, para que a todo o custo se obviassem tão grandes fatalidades. Pessoalmente foy hum dia ao Senado da Camera, em que era presidente D. João de Castro; e na sua presença, e de todos os mais Senadores expoz todos os referidos díscommodos; e com palavras que lhe dictava o seu caritativo zelo os persuadio a que mandassem fabricar pontes, e calçadas, para que tivessem as passagens seguras de todo o perigo, e os caminhos fossem menos molestos no tempo do Inverno. Difficultarão a empreza, attendendo ao grande dispendio que o Senado havia de fazer; mas como as razoes que lhes dava fossem efficazes para lhes atrahir as vontades, se resolverão a pôr em execução a proposta, mas com a condição de que havia de correr toda a obra por conta do seu zelo. Derão neste arbítrio fiado em que assim como mostrava tanto desvelo em requerer pelo remido dos proximos, não seria menos zeloso em cuidar que o dinheiro que se houvesse de gastar fosse bem merecido e com fidelidade dispendido. Aceitou a commissão no que pertencia à direcção das obras, e vigilante assistencia dos officiaes, escolhendo por companheiro, com licença dos Prelados, a Fr. Manoel das Chagas, pela muita capacidade que lhe conhecia para este ministerio. Logo fez conduzir todos os materiaes necessarios e distribuhio os officiaes por varias partes para que tendo a emulação a mayor parte na superintendencia, se concluisse a obra com brevidade e perfeição. Principiou pelo Lugar de Pedrouços, e defronte delle mandou fazer huma pequena ponte, para resguardo das lamas do Inverno. Comprehendeo as margens do rio de Alges, junto à Quinta que hoje possue o Duque de Cadaval Nuno Alvares Pereira, com outra ponte levantada sobre hum forte e grande arco, em que de huma e outra parte se entra por calçada, que tambem mandou fazer. Antes de chegar ao Convento de S. Joseph os que vem de Lisboa em distancia de dous tiros de mosquete, mandou levantar huma cruz de marmore, bornida com todo o primor, e de hum e outro lado duas calçadas, huma que se termina no Convento e a outra que se dilata por Barquerena Caspolima e outras partes, que terá mais de meya legoa de comprimento. Ao pé do monte de Santa Catharina, para facilitar a quebrada de huma passagem, ordenou se fizesse huma pequena ponte; e mais adiante collocou outra Cruz como a primeira., e junto a ella principiou huma ponte fermosa de trez arcos, em cuja fortaleza achassem os tempos, e as aguas mayor resistencia. Na fabrica desta ponte mostrou mais apurado o seu desvelo, por ser esta a passagem que mais o havia provocado às lamentaçoes que fazia e que o obrigarão a aceitar aquella incumbencia. Seguindo as margens do rio ate o Lugar de Linhalpastor, nelle mandou tambem fazer outra ponte de trez arcos, e junto a ella outra Cruz, como as duas mencionadas, e ao pé de todas fez gravar hum letreiro em que declara que a Cidade de Lisboa mandava fazer aquellas obras no anno de 1608. Em todas se dispenderão vinte e quatro mil cruzados; e senão fora a cuidadosa assistência deste Servo de Deus e de seu Companheiro, se gastarião muitos mais, cujas confissoes fazião os mesmos Senadores.


 A «fermosa ponte de tres arcos» é a dos azulejos, e, corroborando os dizeres do autor franciscano, ainda ostenta a inscrição comemorativa onde se lê:

A SIDADE MAND
OVFAZER ESTA
PONTE E AS MAIS
OBRAS A CVSTA DO
REAL DO POVO
NO ANO DE 1608

 para que não haja dúvidas sobre que «sidade» seria, lá está também, do outro lado, a «Nau dos Corvos», marca de Lisboa.


sábado, 29 de abril de 2017

Casa da Antiga Fábrica de Cerâmica de Montargila, património classificado ou nem por isso?



Classificada como património de interesse municipal no Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental do Concelho de Oeiras,  Edital nº 361/2012, situa-se na estrada que vai de Algés para Linda a Velha (Rua João Chagas) e encontra-se hoje ao abandono. É caso para perguntar se, ser classificado como património de relevo para a história das localidades altera em algo o modo como se trata da sua preservação e conservação no concelho de Oeiras.
 Apesar de edilidade oeirense ter as ferramentas necessárias para obrigar o proprietário a efectuar obras de restauro, poder efectua-las compulsivamente caso não sejam cumpridas as obrigações inerentes à posse de um imóvel deste tipo, a verdade é que quem se encarrega destas questões nos meandros camarários demonstra uma passividade e um incompetência acima de qualquer normalidade. No entretanto, os anos vão passando e dia após dia maravilhas da memória da região como esta vão caminhando a passos largos para a total ruína e eventual desaparecimento.
 Mais estranho nesta situação é a isenção parcial de pagamento de IMI de 30% que todos os imóveis classificados no edital camarário de Plano de Salvaguarda do Património Construído e Ambiental, por via de serem objecto de obrigações específicas de conservação e restauro, havendo até imóveis que estão isentos em maiores percentagens como é o caso do Convento de São José de Ribamar em Algés, ora estas obrigações não estão a ser cumpridas como é claro e em Oeiras olha-se para o lado e assobia-se. Não se compreende que continuando ano após ano o não cumprimento das suas obrigações, estes fundos imobiliários detentores destas propriedades continuarem a beneficiar de isenções de IMI ... deveriam talvez serem obrigados a pagar todos os anos anteriores em que não cumpriram com as suas obrigações...


 Gostaria de saber a opinião dos diversos concorrentes à União das freguesias e à municipalidade oeirense quanto a este particular, quer-me bem parecer que, é questão que muito poucos conhecem, esta triste realidade que, no caso da Casa da Antiga Fábrica de Cerâmica de Montargila se arrasta há coisa de 10 anos. Seria até suposto aquando da construção da urbanização que a rodeia ter sido negociado o seu restauro e conservação mas a realidade é que o imóvel ainda sofreu danos durante a construção da urbanização e restauros é o que se vê ...



















A Antiga Fábrica de Cerâmica de Montargila

 A Fábrica de Cerâmica de Montargila, foi fundada em 1897 por J. J. Almeida Junça, remodelada e ampliada em 1906, funcionou até aos anos 60. Fabricava telha, telhão, tijolo, e artigos de cerâmica. Esses artigos são hoje raros e muito poucos registos são conhecidos hoje em dia, por incrível que pareça um deles encontra-se aqui bem perto no parque urbano da Quinta de Santo António, alguns tijolos com o carimbo da fábrica, provavelmente do início do século XX embelezam a calha de recolha da parte entre média do belo aqueduto que ali se encontra. Esse património único da industria da região encontra-se hoje semi destruído e a caminho de desaparecer, tal é o desprezo com que é tratado que, dois destes tijolos se encontram há coisa de um ano dentro do lago e é comum ver a criançada que por ali anda entretida em os arrancar sob o olhar desinteressado dos pais. Falta de informação? De civismo? O que é certo que é que estes "detalhes da história" são mais que importantes para a memória futura e deveriam estar devidamente assinalados e preservados.






 Facto interessante que resultou da minha pesquisa foi a possível participação no negócio da fábrica em parceria com J. J. Almeida Junça do artista José Estevão Cacella de Victoria Pereira, importante mestre do azulejo português. É mencionado na sua biografia que terá sido dono da fábrica mas sabemos também que a família Junça sempre tratou da gestão da fábrica, seria portanto uma sociedade constituída pela família Junça e pelo artista José Pereira, os proprietários da fábrica até à sua extinção, pouco depois da morte do artista.
 A  Fábrica de Cerâmica de Montargila, não foi instalada na antiga estrada que ligava Algés a Linda-a-Velha por acaso, a sua localização foi sabiamente escolhida devido à proximidade da matérias primas necessárias à sua produção, assim sendo para além da fábrica encarregada da transformação da argila em produto final, foi também autorizada uma industria extractiva de alguma importância.  Anexa à fábrica era feita a exploração de uma mina a céu aberto (Barreira) na encosta hoje chamada de monte dos marinheiros, sobranceira a Algés. Esta industria extractiva encarregava-se da produção de calcário, saibro e sobretudo de barro (desde sempre matéria prima de eleição da região). Fui encontrar detalhes da sua produção no Relatório de Estatística de Pedreiras de 1936, pág 1a, o qual nos diz estarem ali empregados 1 administrador e 24 trabalhadores e que teriam sido extraídos nesse ano 277,500 toneladas de calcário e 40,800 de saibro para venda, assim como 19473,600 de argila para consumo da fábrica.




 Que me perdoe o ilustre mestre Mário de Sampayo Ribeiro por contrariar as suas teorias sobre a toponímia do lugar de Algés mas, a existência desta pedreira e o particular de uma das suas produções serem o calcário deita por terra as suas conclusões publicadas nas paginas 33 da conferencia "Da Velha Algés" de 1938 na parte "Aditamento".




PEREIRA, José Estevão Cacella de Victoria (1877 - 1952)

Nasceu em Leiria, em 1877. Era filho do Major e escritor Albino Estevão de Victoria Pereira e de D. Carolina Amélia Cacella Lobo. Coronel, cartógrafo, fazendo parte da Comissão de História Militar, ganhou neste campo várias distinções internacionais. Esteve em Moçambique, participou na Guerra dos Boers, e na Primeira Guerra Mundial. Desde muito novo revelou dotes para o desenho e aguarela, e ao casar, em 1904, com Maria Adelaide de Sousa Pereira, filha do pintor Pereira Cão, tornou-se, de certa forma, um discípulo deste Mestre no campo da azulejaria. Como pintor ceramista teve a sua própria fábrica, a Fábrica Montargila, em Linda-a-Velha, e possuiu uma obra muito vasta da qual destacamos os seguintes edifícios: alguns dos silhares no Hospital de Santa Marta; no pátio dos canhões do Museu Militar; no r/c do Mercado da Ribeira (antigo 24 de Julho); no Hospital de São José; na Estação Sul e Sueste (perto do Terreiro do Paço); no Banco Nacional Ultramarino; num dos pavilhões da Exposição do Mundo Português; na Quinta da Regaleira (um painel de azulejos que dá para um dos portões de ferro da escadaria e fachada), em Sintra; no palácio da Exposição de Sevilha de 1929 (actual Consulado Português em Sevilha); na estação ferroviária de Óbidos e em muitas outras obras e casas particulares pelo país fora, incluindo os Açores. Era grande-oficial da Ordem de Avis e possuía as medalhas das Campanhas de África, da Vitória, e a de ouro da Classe de Comportamento Exemplar. Morreu em Lisboa, em 1952, na sua casa da Rua da Junqueira, nº 200.




Uma obra magnifica, o Picadeiro da Codelaria de Rio Frio




O Picadeiro coberto (15x30m) e as Cavalariças possuem um conjunto azulejar atribuído, na sua totalidade, ao pintor José Estevão Cancela de Vitória Pereira (1887-1952), em parceria com a fábrica de cerâmica Montargila (Algés, 1897- década de 60 do século XX).






No picadeiro, corredor e escadaria  manifesta-se uma forte influencia  dos temas decorativos  da azulejaria do século XVII, com cenas emolduradas por conchas, enrolamentos vegetalistas, volutas caras de anjo aladas, meninos atlantes, cartelas em remates de azulejos recortados.